terça-feira, 11 de janeiro de 2011

são coisas que nascem connosco

quando era pequenina, e não tinha opinião, inscreveram-me em aulas de ballet. éramos poucas e pequenas. meia dúzia de bailarinas em miniatura chegavam para fazer magia, e, todas as segundas e quartas-feiras, ansiávamos pela hora em que a professora nos vinha buscar à sala de aula, e nos pescava dos exercícios mais difíceis. era ver uma fila indiana de pequenas pessoas, que quase arrastavam a mala pelas escadas, numa correria desenfreada. dentro dela, jaziam, todas as semanas, maillots lavados, a típica saia curta, rodada, em tons de azul-bebé, com traços celestiais. também as tradicionais sapatilhas, todas em tamanhos mínimos, para servirem na perfeição em cada pequeno pé, cada um mais delicado que o outro. despe roupa, veste collants, veste maillot, veste saia, calça sapatilhas, põe a fita, faz um rabo-de-cavalo, veste o casaco: tudo pronto, está na hora de bailar. primeiro o aquecimento, uma das partes mais divertidas daquela hora, seguido dos alongamentos, pliês e seus companheiros, que, por sua vez, eram continuados pelas posiçoes - e ainda me lembro tão bem como se faz cada uma, desde a primeira até à quinta. por fim, quando já todas ficávamos um bocadinho mais tristes porque notávamos que os últimos exercícios se avizinhavam, aperfeiçoávamos a flexibilidade (é a isso que devo a minha veia para ginástica, que se tem evidenciado nos últimos tempos - ainda hoje tenho a melhor flexibilidade dos arredores) e terminávamos com o agradecimento final, como os lutadores também fazem no karaté. tenho imensas saudades dos tempos em que era mais fácil escolher uma bandolete com purpurinas do que decidir entre umas sapatilhas cor-de-cru ou cor-de-rosa-jasmim. era mágica, a graciosidade dos movimentos, dos bailes, das valsas. os ensaios para as festas da escola, tão bem trabalhados, tão grandiosamente estruturados, para que tudo resultasse num número perfeito, ainda que protagonizado por crianças como nós. e depois, tudo culminava no dia da apresentação, com o tutu branco-neve, previamente escolhido, com todos os ajustes para assentar que nem uma luva. era como beber borboletas, tanto era o nervosismo de entrar no palco, e conseguir a proeza de brilhar. sinto muita falta do ballet, e dos oito anos de felicidade e disciplina que me proporcionou. se soubesse, tinha continuado a ser a bailarina aos olhos de muitos, saído do casulo e, talvez, tentado a minha sorte no conservatório. é impossível olhar para trás e não me arrepender, por isso aprendi a fazer o que mais quero, e deixar os arrependimentos para depois.

3 comentários:

mariana fernandes disse...

eu era igual com a natação. arrependo-me de ter deixado..
um dia, pode ser que tenhas outra oportunidade (:
sim, já sei :p

Mariana disse...

Nunca é tarde para regressar :)
eu pratico desde os 3 e não há nada que me dê mais gosto * beijinho

Lady C disse...

Das coisas que mais me arrependo até hoje foi mesmo ter deixado o ballet...