terça-feira, 5 de abril de 2011

velhos são os trapos

conheço muita gente que mal fala com os avós. conheço mais gente que tem vergonha de lhes falar. e ainda conheço um outro tanto de pessoas que esconde o carinho que lhes tem. também existem aqueles que nunca tiveram a oportunidade de os conhecer, ou que, simplesmente, não conseguiram criar laços com estes segundos pais, como tanto gosto de lhes chamar. e eu tenho a maior pena do mundo de quem se inclui neste conjunto de infortunados. porque eu sempre tive mais duas casas para além da minha; dois lares a mais que o meu. nunca me faltou nada, a dobrar. sempre existiu alguém totalmente presente na minha vida, com mais capacidade e paciência para me acompanhar do que os meus pais, que de tão ocupados a trabalhar, não viram as mesmas coisas que esse alguém viu - não era que não quisessem, tinha de ser. e, invariavelmente, muitas foram as vezes em que dizia, de nariz empinado para os meus pais, que queria ir viver com as minhas avós, porque elas me compreendiam, elas é que me sabiam os traços mais avessos e, claro, elas tinham o dom de me realizar todos os desejos - e quem é que nunca quis ver todos os seus sonhos materializados? ainda mais foram os dias em que precisei das palavras sábias de alguém, e quem estava lá para ouvir os episódios mais caricatos, mais despreocupantes, mais simples, da vida de uma pessoa com doze anos, eram as minhas avós. eram elas que viam todo o brilho que eu trazia nos olhos, quando a minha mãe ou o meu pai não conseguiam puxar lustro aos meus ideais. eram elas que me ensinavam a fazer bolos, que me corrigiam os erros dos ditados, que me instruíam sobre coisas que jamais poderia ter aprendido em qualquer outro lugar. é por isto, e por muito mais coisas, que hoje em dia sinto que sou eu que tenho de fazer qualquer coisa por elas - não porque seja obrigatório, ou porque deva; mas porque quero. quero muito retribuir-lhes todo o amor, todo o carinho e toda a compaixão; quero agradecer-lhes pelos tempos em que me embalaram, pelo quanto me defendiam, deixando ao mesmo tempo que os meus pais me educassem. eu não tenho vergonha de mostrar o quanto gosto das minhas avós (que, com muita pena minha, são o que me resta quando se fala de "segundos pais"), nem me apoquenta que alguém veja o quanto tomo atenção quando me falam. tão pouco me incomoda que dê ouvidos a pessoas mais sábias, porque é nisso que reside uma grande virtude: ouvir o passado e ser fiel às origens. há quem diga que os avós têm agora mais tempo para nos criar, que só aos oitenta anos é que se está apto a educar um filho e que a paciência que nos dedicam é para compensar a que falta, muitas vezes, da parte dos nossos pais. mas eu digo, e ainda com mais certezas, que me sinto muito melhor sabendo que os meus pais, um dia, foram pessoas tão atarefadas que tiveram de me deixar aos cuidados das minhas avós, porque ainda há-de estar para chegar o dia em que trocava os meus serões na companhia delas, por dias com pessoas que tanto têm de adultas, como tanto têm  por aprender - quanto mais ensinar. não quero pensar na falta que me vão fazer, de tanta que vai ser.

8 comentários:

Rodrigo. disse...

Eu adoro os meus avos

mariana f. disse...

os avós têm sempre mais paciência para nós. só me dou com a minha avó materna, a paterna não quer saber de nós, e os meus avôs biológicos já morreram. tenho o marido da minha avó (materna) a quem tenho orgulho em chamar de avô e a minha mãe de pai.
mas gostava de ter conhecido o meu avô paterno, era polícia. a minha mãe disse que ele era excelente pessoa. gostava mesmo de o ter conhecido (:

Inês disse...

adorei :)

Mariana disse...

Adorei o teu texto! Eu felizmente tenho os meus quatro avós vivos e com boa saúde! São das pessoas que mais adoro no mundo e um dos meus sonhos é que ele eles tivessem cá quando eu me casasse:)

Nokas disse...

Eu perdi recentemente a minha avó...quem me dera tê-la cá!!

Maria Café disse...

Também partilho esse carinho pelos avós. Vivi com eles até aos 16 anos e vou lá sempre fazer uma visita, lanchar com a avó e ajudar no que for preciso.
E odeio odeio quando os netos desrespeitam os avós e não lhes dão o devido valor.

-astrid disse...

Não consigo exprimir o quanto gostei deste post.
Os avós são preciosos e geralmente as pessoas mais velhas possuem mais sabedoria, têm tanto para nos ensinar e muita mais paciência do que as pessoas da nossa faixa etária.
Ás vezes prefiro estar com pessoas mais velhas do que com pessoas da minha idade.
Também considero os meus avós os meus segundos pais (mais os maternos do que os paternos, que esses vejo muito pouco) e a casa deles a minha segunda casa. Amo-os apesar de todos os seus defeitos, assim como eles me amam apesar dos meus defeitos. Sei que, tal como os meus pais, estarão sempre lá para mim e isso não tem preço.
Respeito-os e tenho-lhes grande afeição e não tenho vergonha de o dizer nem de o mostrar.

trintona disse...

Partilho por completo a tua opinião, infelizmente não pelos meus avós mas pela minha avó materna que foi sem dúvida a minha 2ª mãe, ou algumas vezes a 1ª mesmo.
Também como tu fui criada com ela, os meus pais tinham que trabalhar e ela é que me criou. É das pessoas mais importantes da minha vida, e quando o ano passado ela esteve mal, muito mal mesmo, era como se fosse a minha mãe...