quarta-feira, 11 de abril de 2012


Domingo foi o pior dia da minha vida. Vai ser durante meses, anos, décadas. Não acredito que exista alguma dor, alguma coisa, para lá do buraco gigante que tenho dentro de mim. A minha avó foi-se embora. Nunca mais vou poder viver no mesmo mundo que ela, dar-lhe a mão, olhá-la nos olhos. Nunca mais. Apanhou-me desprevenida, tiraram-me os tapetes debaixo dos pés quando eu nada tinha para me agarrar. Assim que olhei para o telemóvel, ouvi a voz da minha mãe e me apercebi, eu soube que, a partir daquele dia, a minha vida nunca mais ia ser a mesma. Ia ser pior, cheia de choros em pânico a meio da noite à procura dela. À espera que ela me ligasse para eu ir lá almoçar todos os dias, ver o nome dela no visor do telefone, esperar que ela perguntasse à sua menina querida se não vinha lanchar os bolos que ela comprava, com tanto amor, mesmo quando quase não conseguia andar. E eu não quero viver neste mundo. Não quero viver num mundo em que não possa abraçá-la a toda a hora, levar-lhe mimos, dizer-lhe que ela era a melhor avó do mundo. Chorar com ela os meus problemas, ouvir as histórias que ela tinha sempre para me contar, ver os seus olhos a brilhar quando me via ou sentir o cheiro reconfortante do peito dela. Eu sei, que aproveitei cada minuto, não me importava de viver menos os meus dias, a minha vida de adolescente, só para poder chegar-lhe e dar-lhe todos os abraços fortes, todos os beijinhos, todas as palavras. Eu trocava tudo para poder vê-la sorrir. A primeira pessoa a quem eu queria contar as minhas notas nunca mais vai fazer a maior festa de orgulho da sua menina. Desde que ela ficou sem o meu avô, o seu amor desde os onze anos, que eu nunca a larguei. Apesar do seu mau génio, da sua teimosia, das manias de velhinha. Eu estive sempre lá. Talvez agora perceba porque é que fui parar a tantos blogues, porque é que me apareciam à frente textos e frases que me mandavam aproveitar cada segundo com aqueles de quem gostamos tanto. Eu aproveitei. Dei-lhe todos os abraços, mimos, beijos, bolos, flores, passeios. Dei-lhe a mão. Tomei conta dela quando antes era ela que tomava conta de mim. É a pessoa que conhecia melhor, desde sempre, muito melhor que a mim própria. E pensar que nunca mais vou ouvi-la, vê-la, conviver com ela é surreal. Não existe vida sem ela, simplesmente não existe. Apesar de saber que estava a sofrer muito, nunca vou perdoar a quem não me avisou de que tinha piorado de repente. Apesar de ter ficado com uma última imagem dela saudável e a rir-se, não vou perdoar a quem me roubou os momentos do fim. Dar-lhe a mão, com o meu irmão, fazer-lhe festinhas e dizer que foi a melhor avó que se podia ter. Que me fazia sentir a melhor pessoa do mundo, que era tão boa que me escrevia poemas para os anos antes de ir para o hospital, doente e fraquinha. E por muito que me tentem convencer que ela está melhor agora, que já não está a sofrer, que vai estar para sempre comigo, não consigo acalmar a angústia que cresceu dentro de mim em dois dias apenas. Porquê ela? Porquê uma pessoa tão boa, tão serena, tão humilde e disposta a ajudar os outros? Porquê? Porque é que me foi roubada assim? Dizem que o tempo vai sarando tudo, mas não acredito que alguma vez na minha vida vá ultrapassar isto. Nunca me vou esquecer, de nada. E tal como ela relembrava o meu avô, com lágrimas a transbordar-lhe dos olhos, nunca vou conseguir falar dela sem me emocionar. Sem sentir este buraco a aumentar cada vez mais, a tornar-se negro e a consumir-me. A fazer-me querer trocar tudo o que já fiz por mais um dia, só mais um. Não sei lidar com isto, ninguém sabe, e por muito que tenha aproveitado os momentos com ela, por muito que soubesse que ela um dia tinha de ir, nunca se está realmente à espera disto. De ter que lidar com todas as pessoas que a conheciam, também chorosas e perdidas, e reparar que conseguiu juntar tanta gente, que a amava, que a admirava, que a idolatrava tal como eu. Vai-me custar muito, não lhe poder ligar, não ser capaz de ir a casa dela sem sentir um aperto gigante de saudades dos seus abraços, da maneira como me recebia, de como tratava de mim quando eu precisava. Quero voltar para casa, ser pequena, ter tudo o que tinha antes. Porque é que a vida tem de andar tão depressa? Quero sair deste comboio que se move tão rápido, quero sentir tudo outra vez. Mas não posso. E saber isso deixa-me de rastos. Porque ninguém pode parar o que quer que seja, e por muito que aproveitemos, nunca vai chegar. Queremos sempre mais: mais uma hora, um minuto, um beijinho, um abraço apertado, uma palavra. Aproveitem bem enquanto têm alguém como eu a tinha a ela. Dêem-lhes abraços, afaguem-nos com mimos, façam de tudo para os ver felizes. Se tiverem de comer a comida que mais odeiam, vestir a roupa mais horrível do mundo ou adormecer com alguém que fala sozinho sem refilar, façam-no. Ponham tudo de vocês nas vossas acções, sejam verdadeiros. Não deixem que o comboio só vos permita pairar e olhar para o que está lá fora. Saltem pelas janelas, tragam com vocês quem mais amam, sujeitem-nos à rapidez e a efemeridade da vida - eles não se vão importar, juro, mas tragam-nos. Porque, e como diz na música que não me sai da cabeça há dois dias, honestamente, ninguém nunca vai conseguir parar o comboio. Cabe-vos a vocês, a nós, fazer de tudo para que nunca nos arrependamos de nada. Não esperar para visitar ninguém, não acreditar que acontece aos outros e que a nós não. Não deixar nada para amanhã, nem esperar que tenham a carta quando podem andar até às coisas, não aceitar que não possamos ver a pessoa que mais queremos porque a hora das visitas acabou. Peçam os desejos, mas concretizem-nos. Porque não há nada pior, nada para lá, do que estou a sentir agora.

13 comentários:

Dreams and Chocolate disse...

Muita força ! Beijinho * (sem o que sentes, perdi a minha há duas semanas :/)

Quel* disse...

Muita força. Não há palavras suficientemente eficazes, para te confortar neste momento. Se choraste ao escrever este texto, eu chorei contigo ao lê-lo. A minha avó é tudo isso que tu falaste. E pensar que um dia ela poderá não fazer parte da minha vida é uma coisa que me deixa em pânico.
As vezes penso que preferia ir primeiro que ela só para não sentir a dor de a perder.
Muita força, Susana.

Green disse...

Muita força! Beijinho.

Lua disse...

Eu fico com uma dor no coração cada vez que alguém da familia morre. As vez não por ser a pessoa que é, mas sim de tentar imaginar a dor que vai ser quando eu perder a minha avó. Tal como tu, tenho uma relação fantastica com ela.

Força nisso, de certeza que ela continua orgulhosa da neta que tem e que no silencio te vai continuar a dar os melhores conselhos.

Como ja alguem dizia, a saudade é sinal que viveste momentos inesqueciveis e inigualaveis.

Um grande beijinho e força. You can go through it

Rita disse...

Eu perdi a minha também na Páscoa.
Ficam as memórias e a esperança num reencontro.
Muita força. Lembra-te que tu és uma parte dela viva.

Sara disse...

Este post emocionou-me e fez-me chorar, porque sinto-o como se fosse meu. Felizmente ainda tenho a minha avó, quase a completar os seus 85 anos. E não consigo imaginar a dor de perder uma pessoa que esteve comigo toda vida, cuidou de mim como se fosse uma filha, fez-se de forte quando o meu avó morreu só para me reconfortar, mesmo doente fazia-me os almoços e jantares com todo o carinho.

São mulheres de força, e tens de a recordar dessa maneira. A dor nunca vai deixar de existir, a saudade só aumentará, vais é aprender a lidar com ela.

É ter força e continuar a viver intensamente não deixar nada por fazer, tal como afirmas no teu post.

verniz escarlate disse...

As memórias são intemporais.
O cheiro, o sorriso, as gargalhadas, os sons...tudo vai ficar sempre. O amor está na alma e a alma não morre nunca querida!
um beijinho para ti. Agora tens uma pessoa a olhar por ti sempre.

mary disse...

Creio que não há realmente nada que nos possam dizer neste momento que nos vá acalmar... Só posso desejar de coração que a maior dor passe, que possas voltar a ver os dias de uma forma mais serena...
Um beijinho e muita força *

Mariana disse...

Um grande beijinho de força para este momento difícil.

Azul do Mar disse...

Realmente a vida não é nada como nos filmes. Os maus não morrem e os bons não ficam cá para sempre. Tudo tem um fim e por vezes é impossível aceitar esse fim. O máximo que te posso dizer é que tenhas muita força e que relembres os bons momentos que passaram juntas, e é certo que não te vai fazer sentir melhor o que vou dizer, no entanto talvez faça, porque talvez se ouvires isto mais vezes comeces a acreditar: acredita que ela ficará sempre contigo e estará sempre contigo, nos teus pensamentos, nas tuas palavras, no teu coração, naquilo que és. Dá o teu melhor todos os dias, esse é o melhor luto que podes fazer por ela. O tempo atenua a dor, portanto dá tempo ao tempo e vai aguentando, porque nestas situações não há mais nada a fazer.
Beijinhos e muita força.

Inês disse...

Susana, infelizmente também passei por uma situação idêntica há alguns anos e sei que por muito que tentemos, é impossível trazer o passado para nós outra vez... mas guarda todas as melhores memórias, recorda-as... é a melhor coisa que poderás fazer. E sim, agarra-te a tudo aquilo que é importante para ti, vive intensamente. Um grande beijinho cheio de força. Tu és capaz!

Danii disse...

Oh susaninha, acabei de ler este teu texto, que me emocionou bastante. Eu já não tenho avós, a minha avó com quem me dava mais (apesar de ainda ser muito pouco) morreu há muito pouco tempo também. Não senti nem metade do que possas estar a sentir. Ela era com certeza bem mais velhinha que a tua, sempre a conheci assim. Espero que ultrapasses isto rápido, tens todo o meu apoio! um grande beijinho <3

R. disse...

Ler este teu texto trouxe ao de cima o maior dos meus medos: perder os meus avós. Cada vez que penso nisso dá-me o maior aperto no coração e não consigo conter as lágrimas. Acho que deve ser algo que nunca ultrapassamos mas sim algo com que aprendemos a sobreviver. Escusado será dizer que chorei que só visto a ler o teu texto, está fantástico. E mesmo não fazendo ideia pelo que estás a passar, desejo-te a maior das forças! um grande beijinho :)